Os apps de delivery ficam com 15 a 30 % da sua venda (e com o seu cliente)
Você vende mais que no ano passado e a conta não acompanha: comissão, promoções e embalagem ficam com a margem. E com o cliente.
Neste artigo
No mês passado você vendeu 320 pedidos por aplicativos. O faturamento subiu 18 % em relação ao ano anterior e a conta bancária não sentiu.
Quando você abre o detalhe, a história se explica: 28 % de comissão, uma promoção de entrega grátis que você bancou, embalagens que ficaram mais caras e três pedidos cancelados que ninguém te pagou. O prato que no salão deixa 40 % de margem, no app deixa 12 %.
E o mais difícil de aceitar: desses 320 clientes, você não tem o telefone de nenhum.
O que um app cobra de verdade
A comissão é a parte visível. O custo real de vender por uma plataforma de delivery tem cinco componentes:
| Conceito | Exemplo sobre um pedido de 30 USD | Quem paga |
|---|---|---|
| Comissão da plataforma (15–30 %) | 7,50 USD | O restaurante |
| Promoção de entrega ou desconto | 2,00 USD | O restaurante, total ou parcialmente |
| Embalagem e sacolas | 1,20 USD | O restaurante |
| Custo de comida e preparo | 9,60 USD | O restaurante |
| Cobranças por cancelamento ou incidentes | Variável | O restaurante |
Somando tudo, o pedido de 30 USD deixa cerca de 9,70 USD antes de pessoal, aluguel e serviços. Se a comissão fosse de 30 % e a promoção maior, a margem chega perto de zero.
Há três detalhes que quase ninguém confere no contrato:
- Sobre o que a comissão é calculada. Algumas plataformas aplicam sobre o subtotal, outras sobre o total com impostos e entrega.
- Quem paga as promoções. Uma oferta de «entrega grátis» costuma ser dividida, e a parte do restaurante nem sempre fica explícita.
- As cobranças por incidentes. Um pedido cancelado ou contestado pode custar o prato e a comissão.
A conta do prato: app x direto
O mesmo prato, três canais, três resultados diferentes. Com preço de venda de 15 USD e custo de ingredientes de 4,50 USD (se você não tem esse dado, comece pelo food cost real por prato):
| Conceito | Salão | App de delivery | Pedido direto |
|---|---|---|---|
| Preço de venda | 15,00 | 15,00 | 15,00 |
| Comissão da plataforma | — | −4,50 | −0,60 |
| Embalagem | — | −0,80 | −0,80 |
| Custo de comida | −4,50 | −4,50 | −4,50 |
| Margem bruta | 10,50 | 5,20 | 9,10 |
No canal direto, a comissão de 0,60 USD representa o gateway de pagamento e a plataforma de pedidos. A diferença entre 5,20 e 9,10 USD por pedido é a margem que o app fica por fazer a intermediação.
Com 300 pedidos por mês, migrar só 20 % para o canal direto são 60 pedidos × 3,90 USD: cerca de 234 USD por mês, quase 2.800 USD por ano. Números ilustrativos, mas a estrutura se repete em qualquer restaurante com volume.
O problema de fundo não é a comissão
A comissão dói, mas é um custo conhecido. O que não se vê é o que você perde em cada pedido:
- Você não tem o contato. Nem telefone, nem e-mail, nem histórico de compra.
- Você não consegue falar com o cliente. Não pode avisar de um prato novo nem convidar em uma terça fraca.
- O app compete com você dentro do seu próprio pedido. Ao fechar a compra, sugere outros restaurantes.
- O cliente é da plataforma. Se amanhã ela oferecer um desconto no restaurante da frente, ele vai embora e você não pode fazer nada.
Você é dono da cozinha, mas não da audiência. E um restaurante sem audiência depende de quem lhe traga clientes, com a comissão que impuserem.
A estratégia de três camadas
Não se trata de romper com os apps: eles seguem sendo um canal de descoberta potente, sobretudo para clientes novos. Trata-se de deixar de depender deles.
1. Captação em cada ponto de contato
- Na sacola: um encarte com QR e uma oferta de boas-vindas ao canal direto (uma sobremesa, uma bebida, entrega grátis no primeiro pedido próprio).
- No cupom do salão: o mesmo convite, com um motivo concreto para se cadastrar.
- Na confirmação do pedido: uma mensagem que agradeça e ofereça o canal direto para a próxima vez.
- No Google e nas redes: o link de pedido direto visível, não enterrado no rodapé.
Um aviso honesto: alguns contratos de plataformas de delivery proíbem incluir publicidade de canais próprios na embalagem. Revise o seu acordo antes de imprimir mil encartes.
2. Um canal direto sem atrito
O pedido direto compete com um app que já tem o cartão salvo. Se o seu processo exige criar uma conta, confirmar por WhatsApp e pagar em dinheiro, você perdeu antes de começar.
- Cardápio claro, com fotos decentes e preços finais.
- Pagamento com cartão ou carteira digital, não só em dinheiro.
- Confirmação automática do pedido e horário estimado.
- Opção de retirar no local: elimina o problema logístico e já captura o cliente.
3. Uma base própria que dá para usar
Captar dados sem usá-los é acumular formulários. A base serve quando está segmentada:
- Por frequência: quem pede toda semana, quem pediu uma vez e não voltou.
- Por dia: quem pede às terças, quem pede às sextas.
- Por preferência: família, vegetariano, escritório, comemoração.
- Por ticket: quem pede individual e quem pede para quatro.
Com isso, uma promoção de terça vai só para quem costuma pedir às terças, e a mensagem deixa de ser ruído.
Como migrar sem perder volume
- Não desligue o app. Ele segue como canal de captação enquanto você constrói o seu.
- Escolha um produto. Comece pelo prato mais pedido e mais rentável: aquele que as pessoas já buscam pelo nome.
- Dê um motivo para trocar. Preço final menor, brinde, entrega grátis ou atendimento direto. Que a diferença seja visível.
- Teste em dias fracos. Terças e quartas, quando você precisa de volume e tem capacidade de cozinha.
- Meça uma coisa. Pedidos diretos por semana e ticket médio. Se não crescerem em quatro semanas, o problema é o processo de pedido, não o cliente.
O que automatizar e o que não
A parte repetitiva tem três momentos: captar o contato, etiquetá-lo e voltar a falar com ele no momento certo. É isso que um CRM faz.
Com GoHighLevel, por exemplo, você pode criar um formulário com QR para a sacola, etiquetar automaticamente conforme o prato ou o dia e disparar campanhas por SMS, WhatsApp ou e-mail com links de pedido. Também permite medir qual campanha gerou pedidos.
O que ele não faz, e é bom deixar claro: não é um POS, não gerencia entrega nem logística de delivery, não sincroniza automaticamente com Uber Eats, Rappi ou Glovo e não substitui o seu site de pedidos se você já tem um que funciona. É a camada de relacionamento com o cliente, não a camada de operação.
O que medir
| Indicador | Como se calcula | O que ele indica |
|---|---|---|
| % de venda por apps | Venda em apps / venda total | Seu grau de dependência |
| Comissão efetiva | Comissões pagas / venda em apps | Mais real que a taxa nominal |
| Margem por canal | (Venda − custos variáveis) / venda | Onde vale a pena empurrar volume |
| Pedidos diretos por semana | Contagem | O avanço real do canal próprio |
| % da base capturada | Contatos com consentimento / pedidos | Se a captação funciona |
| Recompra em 60 dias | Clientes com 2+ pedidos / clientes | Se a relação existe ou é só a transação |
Erros comuns
- Competir com o app por preço. Se o seu canal direto é mais barato porque você tirou margem do prato, você não ganhou: trocou de problema.
- Descontos permanentes. Ensinam o cliente a esperar a promoção e destroem o preço de referência.
- Captar sem permissão. Sem consentimento explícito, a base não serve e as campanhas te colocam em problemas legais.
- Ignorar a operação do canal próprio. Um pedido direto mal administrado custa mais que uma comissão: o cliente se perde para sempre.
- Não medir a comissão efetiva. A taxa do contrato não é o que você paga: promoções e cobranças a elevam.
- Enviar a mesma promoção para a base inteira. É a forma mais rápida de as pessoas pedirem descadastro.
Perguntas frequentes
Devo sair dos apps de delivery?
Não de uma vez. Eles são um canal de descoberta e, para muitos restaurantes, representam uma parte importante do volume. O que vale é reduzir a dependência: que uma parte crescente dos pedidos chegue por um canal próprio.
Quanto tempo leva para construir um canal direto?
A primeira versão — cardápio, pagamento com cartão, confirmação automática — pode ficar pronta em uma ou duas semanas. O que demora é a adoção: entre três e seis meses para que uma parte significativa dos clientes mude de hábito.
É legal pedir aos clientes do app que peçam direto?
Depende do contrato com cada plataforma. Muitas proíbem incluir publicidade própria na embalagem ou contatar o cliente fora do app. O caminho seguro é captar pelos canais que você controla: o seu salão, o seu site, as suas redes e o seu próprio programa de fidelidade.
Preciso de um sistema de pedidos próprio?
Para começar, não: um formulário de pedido com pagamento e uma confirmação automática resolvem. Quando o volume crescer, um sistema específico de pedidos vai te dar controle de tempos, estoque e cozinha.
O que faço com a logística de entrega?
Comece pela retirada no local: elimina o problema e segue captando o cliente. Depois avalie entrega própria ou motoboy por região. A logística é um negócio à parte e não convém improvisar.
Funciona se o meu restaurante não faz delivery?
Sim, a lógica é a mesma: construir uma base própria de clientes com quem você possa falar. Nesse caso, o foco são as reservas e a recompra, não os pedidos.
Plano de quatro semanas
- Semana 1: calcule quanto você pagou de comissão no mês passado e qual foi a sua margem real por canal.
- Semana 2: monte a captação: QR, oferta de boas-vindas e formulário com consentimento.
- Semana 3: abra o canal direto na versão mínima (cardápio, pagamento, confirmação) e teste com dez clientes.
- Semana 4: lance a primeira campanha para o dia mais fraco e meça pedidos diretos e ticket médio.
A comissão se paga em cada pedido. A base de clientes se constrói uma vez e se usa muitas.